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Mostrando postagens de setembro, 2024

Calçada portuguesa

        Sempre gostei de calçada portuguesa. Quando pequeno, era a oportunidade de uma brincadeira rápida na rua enquanto os pais botavam pressa; só pode pisar no branco/preto, corrida com obstáculos, labirinto. Quando a gente cresce, viram dor de cabeça: irregulares, soltas, escorregadiças.      Recentemente o centro foi tomado, de forma desorganizada, pela calçada de brita. Muito mais prática, joga uma mistura de cimento com pedrinhas, alisa porcamente e pronto, dura até o próximo meteoro. Salvador passa por um processo de calçamento bizarro, obras que se estendem por quadras inteiras, durante semanas, o comércio se lascando em caos e poeira para enfim, uma calçada de brita, torta e feia. Calçada portuguesa está reservada às praças e os entornos que contam com o interesse do governo, aí não falta pedra, apenas arvoreamento. Passe em frente ao TCA ao meio-dia e se sinta num conto de Asimov sendo banhado por seis sóis. Mas vou tentar me manter no ...

Catupiry não é queijo.

      Se eu fosse numerar um top 3 de coisas que me estressam, a ordem seria assim: em terceiro lugar, a existência de Cláudia Leitte e, se me permitem um 3.1, a existência do fã desse equívoco; Em segundo, gente que fica andando em zigue zague na rua parecendo um bocó; e em primeiríssimo lugar, é comprar um salgado de presunto e queijo e vir presunto e catupiry.     Acredito na existência do divino quando percebo que tudo na vida é incompleto, mas que a completude vaga pelo mundo e o encaixe perfeito existe. Os italianos vão dizer que a massa está para o tomate, os japoneses que o arroz está para a alga e por aí vai. Nós brasileiros, mestres da lambança e da mistureba, exímios na arte do fusion e mais abertos a influências culinárias do que rabo de funkeira, não inventamos mas adotamos como se fosse nossa essa criação divina que é o presunto e queijo. Que me perdoem vocês veganos, os lacto intolerantes e os de paladar exigente, mas se tem algo que faz...

Dom Quixote ou Frequentem o teatro pelo amor dos deuses.

                                                                                                   Foto: Carlos Grum      Ah, o teatro. Nós, realizadores e frequentadores, essa pequena bolha de resistência que insiste em manter acessa a chama da arte da encenação mais antiga que, sei lá, a fabricação do pão? O que veio primeiro, o teatro ou o pão?      - Amigo, vai ter uma montagem de Dom Quixote na Caixa, anima?      - Animo não, mas topo.      A plat...

A arte que (não) cabe.

     Ser artista nos dias de hoje já não é mais sobre o desafio de torná-la nossa profissão principal. Para ser artista é preciso, antes de tudo, ser uma pessoa terrivelmente online. Não adianta ser artista e não dominar o algoritimês; sobretudo não se vender de um certo “jeito”, uma postura de propaganda de margarina, expressão essa que já denuncia minha estranheza. O termo “propaganda de margarina” era muito utilizado na minha época para se referir àquela estética perfeitinha, família branca sentada à mesa farta e exalando felicidade. Era uma estética de venda, um recorte exagerado de um ideal de vida.      Hoje, o recorte exagerado faz parte do novo normal. Nos acostumamos a se mostrar brevemente, ainda que diariamente, praticando um certo dolce mangiare burro . O conceito italiano de curtir um certo “fazer nada” agora é impensável, a não ser que seja esteticamente instagramável, tipo os pés numa rede ou as pernas na praia. Nos tornamos todos amostradinh...