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A arte que (não) cabe.




    
Ser artista nos dias de hoje já não é mais sobre o desafio de torná-la nossa profissão principal. Para ser artista é preciso, antes de tudo, ser uma pessoa terrivelmente online. Não adianta ser artista e não dominar o algoritimês; sobretudo não se vender de um certo “jeito”, uma postura de propaganda de margarina, expressão essa que já denuncia minha estranheza. O termo “propaganda de margarina” era muito utilizado na minha época para se referir àquela estética perfeitinha, família branca sentada à mesa farta e exalando felicidade. Era uma estética de venda, um recorte exagerado de um ideal de vida.

    Hoje, o recorte exagerado faz parte do novo normal. Nos acostumamos a se mostrar brevemente, ainda que diariamente, praticando um certo dolce mangiare burro. O conceito italiano de curtir um certo “fazer nada” agora é impensável, a não ser que seja esteticamente instagramável, tipo os pés numa rede ou as pernas na praia. Nos tornamos todos amostradinhos, regressamos àquela fase da criança que aprendeu a rolar no chão e que grita insistentemente Olha! Olha o que eu sei fazer!

    Cabe então ao artista o papel duplo: sua arte e como vender sua arte. Há quem diga que as redes sociais (vulgo Instagram, exclusivamente) são uma oportunidade para alcançar outras pessoas e que, antigamente seria ainda mais difícil, o que não deixa de ser verdade; existe certa beleza nessa visão reducionista. O Instagram está para o artista o que o jogo do tigrinho está para quem sonha em enriquecer. Todo mundo está tentando a sorte nessa roleta, mas o artista ainda precisa se desdobrar em ares de influencer; ainda que lhe falte o dinheiro do aluguel, a estética da alegria; ainda que lhe falte a visão de um futuro digno, que não esqueçam do like para dar engajamento. Ainda que criar seja sua missão primordial, o artista de hoje nunca é um criador de conteúdo, pois esta categoria cada vez mais designa aquela pessoa capaz de sorrir e comprimir tudo em 30 segundos.

    E o que estamos fazendo da arte quando nossa mente automaticamente está pensando em como caber nesses parâmetros?

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