Sempre gostei de calçada portuguesa. Quando pequeno, era a oportunidade de uma brincadeira rápida na rua enquanto os pais botavam pressa; só pode pisar no branco/preto, corrida com obstáculos, labirinto. Quando a gente cresce, viram dor de cabeça: irregulares, soltas, escorregadiças.
Recentemente o centro foi tomado, de forma desorganizada, pela calçada de brita. Muito mais prática, joga uma mistura de cimento com pedrinhas, alisa porcamente e pronto, dura até o próximo meteoro. Salvador passa por um processo de calçamento bizarro, obras que se estendem por quadras inteiras, durante semanas, o comércio se lascando em caos e poeira para enfim, uma calçada de brita, torta e feia. Calçada portuguesa está reservada às praças e os entornos que contam com o interesse do governo, aí não falta pedra, apenas arvoreamento. Passe em frente ao TCA ao meio-dia e se sinta num conto de Asimov sendo banhado por seis sóis. Mas vou tentar me manter no recorte calçada e deixar a poda de árvores para depois.
Calçada hoje em dia parece o feed das redes sociais: caótica e desimportante; e calçada portuguesa é um projeto público que não cabe mais no mundo atual. A arquitetura do fim é reta, preguiçosa e sem personalidade, feito a casa antiga que, ao invés de receber manutenção, é extirpada de suas curvas e arabescos por uma fachada reta e clean. O futuro tem cara de consultório, pois beleza só é válida se for para (se) vender. Até os pensamentos estão mais retilíneos, cérebros cada vez mais lisos, feito um peito de frango recém saído da embalagem. O homem adora cimentar as coisas, umas sobre as outras, até que um dia alguém escava tudo, recorta um pedaço e coloca num museu; linhas e mais linhas de história soterrada em grossas faixas de pedra sobre pedra. Como aconteceu recentemente na Avenida Sete durante uma reforma, acharam camadas e mais camadas de terreno sobreposto, revelando o avanço ao longo dos séculos. O recorte do nosso tempo, daqui algumas décadas alguém escava e descobre: deu merda.

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