Pular para o conteúdo principal

Dom Quixote ou Frequentem o teatro pelo amor dos deuses.

                                                                                                   Foto: Carlos Grum

    Ah, o teatro. Nós, realizadores e frequentadores, essa pequena bolha de resistência que insiste em manter acessa a chama da arte da encenação mais antiga que, sei lá, a fabricação do pão? O que veio primeiro, o teatro ou o pão?

    - Amigo, vai ter uma montagem de Dom Quixote na Caixa, anima?

    - Animo não, mas topo.

    A platéia dividida em três grupos muito distintos: em vantagem absoluta, a matilha de senhoras oriundas de uma época em que o protagonista era galã de novela. Todas maquiadas, muitos cachecóis e risinhos ansiosos; em menor número, senhores vindouros da leitura do original, em busca da virilidade louca razoavelmente bem apresentada pelo protagonista (+ virilidade, - loucura); em número discreto porém perceptível, as gays safadas como eu, que foram na esperança que Leonardo Bricio se livrasse daquele figurino pesadíssimo em algum momento.

    Somos recepcionados pelos dois atores, sorrisão no rosto e sotaque carioca, daquele jeito que o teatro gosta de fazer OLHA GENTE SOMOS ATORES NÃO COMEÇOU AINDA VIU? *terceiro sinal* Agora começou. E no meio dessa confusão mal resolvida, a quarta parede frágil como uma casinha de sapê, atores gritando pra burro, senhores assoando o nariz e senhoras hihihi, todas impressionadas com as proeminências virtuosas do galã, com 15 minutos de espetáculo minha mente começa a se perguntar QUE XOU DA XUXA É ESSE?? Sobra vontade dos atores, os suores escorrem, Kadu Garcia se desdobra pra dar conta do alívio cômico, Léo Bricio é um pão mesmo com aqueles olhinhos de labrador e o sorrisão de muso, mas sobra também aquilo do mesmo. Uma projeção ruim, trilha sonora de tecladinho sintetizador, eu já pensando na janta quando, enfim, o texto se revela. É, existe algo de bonito na lealdade do escudeiro que defende o amigo da loucura que é estar vivo. Olhinhos marejados, Léo e eu, que homem, senhores, que homem.

    - Amigo, achei maravilhoso aquela fala dele no final sobre estarmos aqui e agora.

    - O que você mais gostou foi do agradecimento do ator?

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

“Assombro” de Palahniuk ou A exaustão da violência.

       Eu sou apaixonado por Clube da Luta. Quando vi o filme pela primeira vez, foi a consumação de tudo aquilo que, na época, almejava como artista: disruptivo e videocliptico. Uma transposição surpreendente de um livro vigoroso e recheado de ideias inflamáveis.      Quando o nome do autor saltou em meio a prateleira de um sebo, nem pestanejei e comprei, atraído não só pelo estilo do autor mas como pela trama em si. Infelizmente, apesar do início promissor, o desenvolvimento me causou um efeito estranho ao longo de suas mais de 500 páginas.     Ainda que com a áurea de seu livro mais conhecido, que poderiam facilmente pertencer a um mesmo universo de seres inconformados com o sistema e com sede de destruir tudo, estruturalmente a história conta com um problema meio óbvio: selecionados para um misterioso retiro de escritores, acompanhamos a história de DEZOITO personagens mais o dono da empreitada e sua mulher. Logo de início, descobrim...

Catupiry não é queijo.

      Se eu fosse numerar um top 3 de coisas que me estressam, a ordem seria assim: em terceiro lugar, a existência de Cláudia Leitte e, se me permitem um 3.1, a existência do fã desse equívoco; Em segundo, gente que fica andando em zigue zague na rua parecendo um bocó; e em primeiríssimo lugar, é comprar um salgado de presunto e queijo e vir presunto e catupiry.     Acredito na existência do divino quando percebo que tudo na vida é incompleto, mas que a completude vaga pelo mundo e o encaixe perfeito existe. Os italianos vão dizer que a massa está para o tomate, os japoneses que o arroz está para a alga e por aí vai. Nós brasileiros, mestres da lambança e da mistureba, exímios na arte do fusion e mais abertos a influências culinárias do que rabo de funkeira, não inventamos mas adotamos como se fosse nossa essa criação divina que é o presunto e queijo. Que me perdoem vocês veganos, os lacto intolerantes e os de paladar exigente, mas se tem algo que faz...

Vamos trazer de volta o telefone discado?

     Já recuperaram tanto hábito antigo, tipo ouvir LP e revelar fotos, acho que faria bem pro mundo uns dois passos para trás e resignificar algumas coisas. Não é absurdamente de outro planeta pensar que havia um tempo que se pagava (caro) para falar com outra pessoa? Que a gente ensaiava o que ia dizer para não perder muito tempo? Se comunicar era um luxo! Hoje em dia, estamos todos exaustos, prestes a ter um colapso nervoso coletivo e se comunicando através de figurinhas e troca de vídeos engraçados.      Lá na época do Orkut, quando a comunicação ainda não havia se tornado a prostituta mais gostosa do puteiro, era divertido tentar lembrar o nome dos colegas de escola para adicionar como amigo; retomar os contatos, "E aí, o que tem feito?", "Por onde anda?" e outras interações. Hoje em dia, cá estamos dando unfollow em ex-conhecidos, silenciando gente chata e, no auge do cansaço, apagando o perfil antigo e começando um novo; deixando de abrir aquela mens...