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A invisibilidade oriental dentro do discurso da representatividade.

    Nas últimas semanas, minha mente esteve em completo caos enquanto tentava concluir meus projetos para o edital. É impossível não se sentir sobrecarregado: crises, desistências, choro, pausas para respirar, e, em seguida, a retomada de um processo que, hoje, parece ser o único caminho para viabilizar qualquer projeto. Depois de muitas tentativas, aprende-se mais sobre os detalhes e nuances do processo. Mas isso não o torna mais fácil: lidar com orçamento, produção, cronogramas e outros aspectos técnicos e organizacionais sempre me deixa à beira de um colapso. Contudo, há um ponto que sempre me provoca: a falta de um detalhe que, embora pequeno, carrega um peso enorme para minha existência nas artes — as cotas.

    Todo edital repete o mesmo roteiro: “Com qual raça/cor/etnia você se identifica?” Entre todas as opções, apenas uma parece ser tratada como mera formalidade: amarela. Enquanto outras minorias são direcionadas para avaliações diferenciadas, com critérios e pesos que reconhecem a reparação histórica e seu valor, a mim resta apenas um “Ok, está registrado”.

    E de onde vem essa invisibilidade amarela praticada pelos editais? A resposta é óbvia: da demanda, que praticamente não existe. Em Salvador, salvo engano, há apenas Diogo Watanabe e eu como artistas orientais em evidência. Mas a questão é mais profunda: por que existem tão poucos artistas orientais? A resposta que costuma vir à mente da maioria é: talvez seja um povo pouco afeito às artes.

    Essa ideia é algo que ouvi diversas vezes durante minha trajetória. Comentários sobre como “é curioso ver um japonês que não parece japonês” ou sobre meu jeito “diferente” são frequentes. Ser brasileiro, mas com traços orientais, parece me deslocar automaticamente do Brasil. É como se minha própria aparência carregasse uma identidade introspectiva, tímida e reservada, clichês atribuídos à minha raça.

    Dois episódios marcaram profundamente minha trajetória artística. O primeiro ocorreu no início das aulas da faculdade de artes cênicas, quando um professor afirmou que eu tinha um perfil interessante, mas que seria difícil encontrar papéis para mim. Anos se passaram até que eu compreendesse essa afirmação, e muitos "nãos" me mostraram como um oriental dificilmente é visto como uma possibilidade em certos testes. O segundo foi mais adiante, em um musical. Cheguei à última etapa do processo seletivo ao lado de um homem negro e um homem branco. A escolha final, previsivelmente, recaiu sobre o homem branco. Ouvi nos bastidores que ele “não cantava nem dançava, mas para protagonista tinha que ser ele”.

    De forma inconsciente, me adaptei a essa realidade. Hoje, qualquer teste que aparece nem me passa pela cabeça tentar. Basta uma rápida leitura do projeto para identificar se existe ou não espaço para mim. Até em meus próprios textos e roteiros, raramente consigo me colocar em papéis de destaque. Sempre acabo relegado a coadjuvante, quando muito. Isso não é síndrome de vitimização, mas puro cansaço de ser constantemente percebido como estranho.

    E, então, volto ao edital. Não há justificativa para cotas orientais: não há demanda, nem interesse em abordar o assunto. A questão é tão complexa que nem sabemos por onde começar.

    Mas eu começo.

    Como teremos representatividade oriental nas artes se crianças crescem sem se ver representadas e, pior, são rapidamente aprisionadas em clichês culturais que definem nossa raça de forma unilateral? Como encarar um sistema que já atua contra nós, muitas vezes sem o suporte de um núcleo familiar que dificilmente apoia pretensões artísticas? E, afunilando ainda mais: se mulheres orientais encontram alguns papéis — geralmente estereotipados como misteriosas, sexuais ou frias —, quais papéis vêm à mente quando falamos de homens orientais?

    Amigos frequentemente me incentivam: “Crie seu projeto”, “Fale sobre isso”, “Seja a representatividade”. Mas a ideia de militar por mim mesmo me paralisa. Não quero que confundam isso com uma tentativa de igualar minha causa à luta da população negra. As questões são historicamente diferentes, e eu conheço meu lugar. Não pretendo usurpar espaços, mas, ainda assim, me pergunto: qual é o meu espaço em uma sociedade que só se enxerga em preto e branco e só me percebe como amarelo?

    Nunca desejei ser protagonista ou famoso. Meu prazer sempre foi trabalhar em grupo, criando coletivamente. Mas percebo que me conformei em ser excluído. Não me encaixo em nenhum papel ou, quando encaixado, é em estereótipos desgastados: o oriental frio, sério, ou o alívio cômico, caricaturado, de fala afetada e alvo de uma série de piadas de mal gosto.

    E então me pergunto: qual é a arte que me cabe? Insisti a vida inteira em buscar uma arte plural e colorida, mas o que vejo refletido é apenas um filtro amarelado e desgastado, como sépia de um passado que insiste em não mudar.

 

PS: nem tudo é luta. Abaixo, alguns raros momentos da minha carreira onde fui presenteado com papeis que não se importavam nem um pouco com minha raça, apenas em contar uma boa historia.

Um trabalho lindo, feito com muito esmero e suor por uma equipe que se desdobrou para entregar essa websérie com muita beleza e melancolia. Assista aqui: Abrigo - Websérie

 


 Um espetáculo que era desafiador de fazer e recompensador em retorno do público. Morro de saudades desse tempo. Infelizmente, o projeto de virar filme nunca se concretizou.

Curiosamente, os dois projetos envolvem amor romântico. Mas o amor romântico reservado aos homens orientais é tema pra outra conversa...

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