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“Assombro” de Palahniuk ou A exaustão da violência.

 


    Eu sou apaixonado por Clube da Luta. Quando vi o filme pela primeira vez, foi a consumação de tudo aquilo que, na época, almejava como artista: disruptivo e videocliptico. Uma transposição surpreendente de um livro vigoroso e recheado de ideias inflamáveis.

    Quando o nome do autor saltou em meio a prateleira de um sebo, nem pestanejei e comprei, atraído não só pelo estilo do autor mas como pela trama em si. Infelizmente, apesar do início promissor, o desenvolvimento me causou um efeito estranho ao longo de suas mais de 500 páginas.

    Ainda que com a áurea de seu livro mais conhecido, que poderiam facilmente pertencer a um mesmo universo de seres inconformados com o sistema e com sede de destruir tudo, estruturalmente a história conta com um problema meio óbvio: selecionados para um misterioso retiro de escritores, acompanhamos a história de DEZOITO personagens mais o dono da empreitada e sua mulher. Logo de início, descobrimos que cada personagem terá um conto individual, revelando algo de seu passado enquanto a trama principal se desenrola num fiapo de idéia. Daí surge o problema: Cada personagens conta com seu histórico de complicações, que passeiam por todo e qualquer tópico de violência possível e inimaginável e culminando na reunião dessas criaturas trancafiadas num teatro antigo. A meta do retiro é que ele produzam sua obra prima, porém logo todos estão apenas em busca do próximo acontecimento chocante lá dentro para que aquilo se torne a premissa de um filme onde cada um se vê protagonista. Assassinatos, canibalismo, pedofilia, auto-mutilação (e além, muito além…), todo tipo de morte grotesca narrada com riqueza de detalhes e que acaba revelando mais do didatismo do autor em reunir todo tipo de informação técnica para chocar do que de fato encontrar sua razão de ser. A violência aqui é tão corriqueira que nenhuma atitude parece reverberar. Clube da Luta chocou e angariou fãs ao redor do mundo por um motivo: toda a violência era justificada pela visão de um mundo patético e seus habitantes vazios. Aqui, o choque vai se empilhando um sobre o outro a cada nova revelação ao ponto de anestesiar; pior, ao anteciparmos a estrutura, sabendo que a cada nova história revelada um novo acontecimento macabro e/ou bizarro vai surgir, tudo acaba soando apenas gratuito e vazio de significado.

    Se no início as histórias causavam espanto e riso pelo choque, aos poucos fui me cansando da tentativa exagerada de olhar o limite do bom senso nos olhos e derrubá-lo aos chutes. Terminei com a impressão de que talvez o livro funcionasse melhor somente com seus contos individuais, uma vez que a história central responsável por amarrar tudo não entrega nada de recompensador ao fim.

    “Contar uma história é nosso jeito de digerir o que acontece conosco… é como digerimos nossa vida. Nossas experiências.”, filosofa uma das personagens tentando justificar o ato da escrita. Mas a julgar pela quantidade de bizarrices charfundadas ao longo delas, o livro deveria vir acompanhado de um sal de frutas.

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