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A invisibilidade oriental dentro do discurso da representatividade.

     Nas últimas semanas, minha mente esteve em completo caos enquanto tentava concluir meus projetos para o edital. É impossível não se sentir sobrecarregado: crises, desistências, choro, pausas para respirar, e, em seguida, a retomada de um processo que, hoje, parece ser o único caminho para viabilizar qualquer projeto. Depois de muitas tentativas, aprende-se mais sobre os detalhes e nuances do processo. Mas isso não o torna mais fácil: lidar com orçamento, produção, cronogramas e outros aspectos técnicos e organizacionais sempre me deixa à beira de um colapso. Contudo, há um ponto que sempre me provoca: a falta de um detalhe que, embora pequeno, carrega um peso enorme para minha existência nas artes — as cotas.      Todo edital repete o mesmo roteiro: “Com qual raça/cor/etnia você se identifica?” Entre todas as opções, apenas uma parece ser tratada como mera formalidade: amarela. Enquanto outras minorias são direcionadas para avaliações diferenciadas, co...
Postagens recentes

CRÍTICA - Não Se Mexa - Netflix - 2024 (Com spoilers)

    O emburrecimento do público foi tema recorrente a alguns anos, quando o surgimento do fenômeno Netflix mudou a forma como consumimos cinema. No conforto de casa, virou rotina procurar “Algo para assistir” no mesmo despojamento de sentar em um restaurante e olhar o menu. No fluxo de preencher catálogo, o novo suspense da plataforma conta com todos os requisitos para ser um passatempo bem embalado, mas com um recheio de gosto questionável. O mais novo sucesso-da-semana da Netflix, o suspense “Não Se Mexa”, conta com uma premissa simples e dramaturgicamente desafiadora, mas que na prática apenas revela a incapacidade do seu roteiro de sustentar a história sem um amontoado de desvios para preencher o tempo de tela. Em poucos minutos, somos apresentados a Iris, a beira do penhasco onde seu filho pequeno caiu, e prestes a repetir os mesmos passos na tentativa de aliviar seu sofrimento. Eis que um estranho a interpela, e em um breve diálogo expositivo, acaba convencendo-a a ...

FILME: "Speak No Evil" (2024) sem spoilers.

E Em um não tão distante 2022, uma produção dinamarquesa de mesmo nome chamou a atenção de crítica e público, e fui conferir com muita expectativa. Porém, contrariando boa parte das opiniões, considero um filme muito bem construído até o seu terceiro ato, que se torna absolutamente irritante a ponto de me desconectar do filme. O sucesso do filme foi tanto que não demorou para Hollywood anunciar a famigerada versão americana, que muita gente torceu o nariz, enquanto pensei imediatamente se eles iriam "respeitar" o original incluindo aquele desastroso ato final. A boa notícia é que sim, aparentemente esse repúdio a conclusão do original não era apenas meu, e o remake trata de refazê-lo completamente. Mas isso não necessariamente o torna um filme superior. O que o original tem de melhor, além da angústia crescente, é um certo estranhamento com o que de fato estamos lidando. O filme carrega diversas nuances que nem sempre se concretizam, mas que juntas acabam criando uma atmosfer...

“Assombro” de Palahniuk ou A exaustão da violência.

       Eu sou apaixonado por Clube da Luta. Quando vi o filme pela primeira vez, foi a consumação de tudo aquilo que, na época, almejava como artista: disruptivo e videocliptico. Uma transposição surpreendente de um livro vigoroso e recheado de ideias inflamáveis.      Quando o nome do autor saltou em meio a prateleira de um sebo, nem pestanejei e comprei, atraído não só pelo estilo do autor mas como pela trama em si. Infelizmente, apesar do início promissor, o desenvolvimento me causou um efeito estranho ao longo de suas mais de 500 páginas.     Ainda que com a áurea de seu livro mais conhecido, que poderiam facilmente pertencer a um mesmo universo de seres inconformados com o sistema e com sede de destruir tudo, estruturalmente a história conta com um problema meio óbvio: selecionados para um misterioso retiro de escritores, acompanhamos a história de DEZOITO personagens mais o dono da empreitada e sua mulher. Logo de início, descobrim...

Vamos trazer de volta o telefone discado?

     Já recuperaram tanto hábito antigo, tipo ouvir LP e revelar fotos, acho que faria bem pro mundo uns dois passos para trás e resignificar algumas coisas. Não é absurdamente de outro planeta pensar que havia um tempo que se pagava (caro) para falar com outra pessoa? Que a gente ensaiava o que ia dizer para não perder muito tempo? Se comunicar era um luxo! Hoje em dia, estamos todos exaustos, prestes a ter um colapso nervoso coletivo e se comunicando através de figurinhas e troca de vídeos engraçados.      Lá na época do Orkut, quando a comunicação ainda não havia se tornado a prostituta mais gostosa do puteiro, era divertido tentar lembrar o nome dos colegas de escola para adicionar como amigo; retomar os contatos, "E aí, o que tem feito?", "Por onde anda?" e outras interações. Hoje em dia, cá estamos dando unfollow em ex-conhecidos, silenciando gente chata e, no auge do cansaço, apagando o perfil antigo e começando um novo; deixando de abrir aquela mens...

Calçada portuguesa

        Sempre gostei de calçada portuguesa. Quando pequeno, era a oportunidade de uma brincadeira rápida na rua enquanto os pais botavam pressa; só pode pisar no branco/preto, corrida com obstáculos, labirinto. Quando a gente cresce, viram dor de cabeça: irregulares, soltas, escorregadiças.      Recentemente o centro foi tomado, de forma desorganizada, pela calçada de brita. Muito mais prática, joga uma mistura de cimento com pedrinhas, alisa porcamente e pronto, dura até o próximo meteoro. Salvador passa por um processo de calçamento bizarro, obras que se estendem por quadras inteiras, durante semanas, o comércio se lascando em caos e poeira para enfim, uma calçada de brita, torta e feia. Calçada portuguesa está reservada às praças e os entornos que contam com o interesse do governo, aí não falta pedra, apenas arvoreamento. Passe em frente ao TCA ao meio-dia e se sinta num conto de Asimov sendo banhado por seis sóis. Mas vou tentar me manter no ...

Catupiry não é queijo.

      Se eu fosse numerar um top 3 de coisas que me estressam, a ordem seria assim: em terceiro lugar, a existência de Cláudia Leitte e, se me permitem um 3.1, a existência do fã desse equívoco; Em segundo, gente que fica andando em zigue zague na rua parecendo um bocó; e em primeiríssimo lugar, é comprar um salgado de presunto e queijo e vir presunto e catupiry.     Acredito na existência do divino quando percebo que tudo na vida é incompleto, mas que a completude vaga pelo mundo e o encaixe perfeito existe. Os italianos vão dizer que a massa está para o tomate, os japoneses que o arroz está para a alga e por aí vai. Nós brasileiros, mestres da lambança e da mistureba, exímios na arte do fusion e mais abertos a influências culinárias do que rabo de funkeira, não inventamos mas adotamos como se fosse nossa essa criação divina que é o presunto e queijo. Que me perdoem vocês veganos, os lacto intolerantes e os de paladar exigente, mas se tem algo que faz...